4 de nov de 2011 ÀS 22:55 | ATUALIZADO EM 4 de nov de 2011 ÀS 22:55

Transexual Felipa Tavares sonha em brilhar nas passarelas

Ex-garçonete, ex-caixa de uma boate LGBTS, modelo vai nos passos de Lea T.

“MEDIDAS PERFEITAS” A transexual Felipa já viveu em Londres e chamou a atenção pela beleza (Foto: Eduardo Rodrigues)
Aos 48 anos, o empresário carioca Sérgio Mattos pode se gabar de ter revelado ao mundo a maioria das supermodelos brasileiras. Isabeli Fontana, Raica Oliveira, Daniella Sarahyba e Fernanda Tavares são algumas divindades desse efêmero pedestal das vaidades que acreditaram na frase mágica do agente: “Você vai ser top”. O dono da agência de modelos carioca 40 Graus nunca havia, no entanto, escalado uma transexual para seu elenco. Há duas semanas, quando ministrava um workshop no Rio de Janeiro, chamou-lhe a atenção a chegada – atrasada – de Felipa Tavares, uma moça de 1,81 metro e 25 anos que, esbaforida, se equilibrava sobre um par de escarpins rosa-shocking. “Pode se sentar”, disse, meio contrariado. “Horário e disciplina são fundamentais nesta profissão.”

Ao final da aula, Serginho, como é conhecido no meio da moda, terminou a chamada, e o nome de Felipa não constava na lista. “Meu nome está aqui sim, sou Felipe”, disse a moça. “Ficamos todos passados, porque ela realmente é uma mulher. Independentemente de qualquer coisa, Felipa tem medidas perfeitas, se porta bem e tem futuro como modelo. E não dá para esquecer aqueles escarpins tamanho 40”, diz Serginho.

Mineira de Juiz de Fora, Felipa é filha de um mecânico e de uma funcionária de cartório aposentada. Conta que, desde a pré-adolescência, gostava de usar roupas andróginas, calças justas e camisetas baby look. Quando a mãe morreu, em 2004, ela decidiu morar com a avó e a tia em Vila da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro. Trabalhou como caixa de uma boate LGBTS em Copacabana e garçonete de um restaurante especializado em carnes australianas. “Nessa época, estava me transformando, era meio Felipe e meio Felipa”, diz. No ano passado, largou o emprego e se mudou para Londres com um namorado. “Hoje estou solteira. Mas ele é o homem da minha vida.”

Para assistir ao workshop de Serginho, Felipa pegou um ônibus, um metrô e caminhou 2 quilômetros por Botafogo. Sua musa é, claro, Lea T., a modelo transexual brasileira que conquistou as passarelas internacionais depois de desfilar para a grife francesa Givenchy e posar para a capa de uma revista americana beijando Kate Moss na boca. “A Lea me fez ter vontade de correr atrás do meu sonho”, diz Felipa, que conversou com ÉPOCA enquanto terminava de fazer as unhas. “Não adianta meninas como eu sonharem em virar Gisele; Lea é mais possível. Ela mostrou ao mundo que nem toda transexual está condenada à prostituição. Quero ter uma vida normal.”

São muitas as semelhanças com o ídolo: ambas nasceram em Minas Gerais, têm pais que gostam de jogar futebol – Lea é filha do ex-jogador Toninho Cerezo – e planejam fazer a cirurgia de mudança de sexo. “Ainda não sei quando, porque é muito caro. Mas quero fazer assim que possível. Primeiro vou parar de andar de ônibus”, afirma. “Mas não quero o lugar da Lea, ainda sou muito menina, não tenho a experiência dela. Temos temperamentos diferentes.”

MUDANÇA Desde criança, Felipe gostava de roupas femininas. “Era meio Felipe, meio Felipa” (Foto: Eduardo Rodrigues)
Felipa chega ao mercado de moda num momento propício, em que a onda de androginia vem sendo promovida por estilistas locais e internacionais. “Expliquei a ela que existe ainda muito preconceito e polêmica contra as transexuais”, diz Serginho. “Ela tem de ter uma cabeça boa para se expor, já que dificilmente conseguirá campanhas comerciais. Os anunciantes não querem vincular seus produtos.” Surpresa ao ser informada que acabara de ganhar uma concorrente, Lea T. também resolveu distribuir conselhos. “Isso não é uma onda, uma modinha. Somos pessoas que devem ter o direito de trabalhar como qualquer outra. Felipa terá de ser forte, corajosa e não achar que essa vida é glamour. Tem de se dedicar e estudar, preparar seu futuro, porque nossa vida é difícil”, afirma Lea.

Na festa que celebrou os sete anos da agência de Serginho, na semana passada, no Rio, Felipa foi o alvo preferido de flashes e comentários, ofuscando neobeldades como Michelle Martins, Bruna Loureira e Stephannie Oliveira, filha do jogador Bebeto. “Vou apresentá-la ao (fotógrafo peruano) Mario Testino”, diz Serginho. “Com certeza, ele vai gostar dela. Mas ela vai ter de estudar teatro e secar um pouquinho, pois está precisando de um pouco mais de cintura. E quero fazer fotos dela de menino. A moda agora é ser camaleoa chique. Modelo que posa de homem e mulher ganha dobrado.”

Por BRUNO ASTUTO, COM ACYR MÉRA JÚNIOR

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